“A crônica nunca vista”(em italiano: La cronaca mai vista) é um projeto que vê o ser humano em primeiro lugar. Pessoas que ouvem, falam, têm nome e sobrenome e que, no caso deste projeto, têm um espaço em comum: a vida na periferia de São Paulo, Brasil. Esta exposição oferece uma oportunidade para um estudo social aprofundado, oferecendo fotos que retratam cenas da vida cotidiana em um lugar que parece esquecido ou, para alguns, até mesmo socialmente inexistente. O objetivo é lançar luz sobre a pessoa, retratada em seu ser humano mais cru e real. Por este motivo, este projeto tem uma seleção apenas de fotografias que têm uma presença humana como objeto.

O projeto propõe um caminho oposto ao arquétipo que rodeia a periferia como um lugar hostil e criminalizado. A narrativa apresentada nesta exposição convida a conhecer a comunidade, a arte, a moda e o tempo de lazer presentes nessas comunidades. Conhecer aspectos da vida cotidiana de pessoas que moram longe no sentido não só da questão geográfica, mas na realidade, mesmo morando na cidade que é, dicotomicamente, a mais rica do Brasil e a décima mais rica do planeta.

Esse estereótipo de criminalização da periferia é freqüentemente reforçado por aqueles que a registram. Suas fotografias chegam aos principais jornais de São Paulo, geralmente envolvendo uma reclamação. É claro que a vulnerabilidade social é uma questão-chave nessas áreas e não deve ser negligenciada, mas não deve ser o fio condutor para resumir a periferia dessa maneira simplista e negativa. Portanto, este projeto faz um apelo para conhecer a periferia a partir dos cliques de quem a vive e não daqueles que a denunciam. E ainda, se a fotografia é uma maneira de criar estereótipos ou fortalecê-los, nesse projeto a fotografia tem o papel inverso: desconstruir esses estereótipos.

FOTÓGRAFOS PARTICIPANTES

Gustavo Schmidt é um dos artistas selecionados para esta exposição e também um protagonista da vida nos subúrbios paulistanos. Nascido e criado na zona leste, uma área com quase 5 milhões de habitantes, ele testemunhou situações profundamente trágicas, como a morte de amigos por fome, mães solteiras e uma geração de jovens forçados a abandonar seus estudos por causa da necessidade de trabalhar e providenciar o sustento da família. Ele sabe que a união é fundamental e uma grande característica dessas comunidades. E isso é palpável em seu trabalho, tornando Schmidt um poderoso testemunho da realidade de sua favela.

Erica Essó, também faz parte desta exposição não apenas como fotógrafa, mas como pessoa inserida na realidade da comunidade. A filha de migrantes do norte do Brasil se tornou aos 24 anos, mãe-solo (termo usado em português para se referir a uma mãe que cuida de sua filha sozinha, sem ajuda paterna), um fenômeno comum no Brasil (estima-se que 11,6 milhões de mulheres criam seus filhos sem pai, segundo o Instituto Estatisca de Geografia do Brasil. Essó é uma artista completa. Desde a infância explorou o mundo do desenho, da pintura e da literatura. Ela atualmente reside em Carapicuíba, uma cidade nos arredores do oeste de São Paulo, e documenta a vida na Favela do Mourão. A artista explica: procuro responder a questões sociais que exigem respostas urgentes: as diferentes escolhas de cada uma dessas pessoas, do preto e do branco, seriam produto da situação social do país e do governo de São Paulo, ou suas conseqüências?

Diego Cordeiro, um jovem fotógrafo de 32 anos, procura rostos para seus retratos nas ruas de Guaianases, um bairro no extremo leste de São Paulo. Para o fotógrafo, o retrato é a melhor maneira de expressar emoções que variam de fadiga a plena euforia. O artista diz: “Feliz, triste, cansado, nervoso ou calmo, espero o melhor momento e tento apreender o estado emocional de cada um”.

O coletivo DiCampana nasceu em São Paulo em 2016 a partir da iniciativa de três fotógrafos com o objetivo de documentar o cotidiano da periferia como forma de desconstruir o estereótipo midiático erroneamente divulgado. O coletivo composto hoje por quatro fotógrafos que residem nos subúrbios resume a existência dessa organização: O cotidiano dessas regiões que acolhem milhões de pessoas supera o estereótipo da mídia reforçado por clichês e estigmas que fascinam as pessoas. A cultura, o lazer, a rotina e a vida do nosso povo são diferentes. A periferia não é violenta, é violada.”

PROJETO NASCEU EM UM CURSO NA ITÁLIA

Este projeto foi realizado ao longo do segundo semestre de 2018 para a conclusão do curso de “Curadoria da Imagem Contemporânea” da Fondazione Modena Arti Visive, uma na Itália. E é assinado pela autora deste blog, Letícia Quatel. Você pode visualizá-lo diretamente na página da Fondazione que é uma escola de alta formação na área de imagem e fotografia, em Modena, na região da Emilia-Romagna >> https://bit.ly/2UeSN3Z

CONFIRA ALGUMAS FOTOS QUE FAZEM PARTE DA EXPOSIÇÃO

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s