Iconoclastia, no dicionário, designa “pessoa que destrói imagens religiosas, símbolos ou movimentos”.  De origem grega, a palavra iconoclasta surge da junção dos termos eikon (imagem) e klastein (quebrar).

Uma das características das imagens é que elas foram e ainda são uma forma de idolatria, desejo e fetichismo. Esta característica sedutora historicamente sempre foi usada de forma a influenciar e converter a população a uma determinada religião. Não é à toa que tanto judeus quanto cristãos decidiram que o prioritário amar a Deus sobre todas as coisas era seguido “de não venerar imagens ou adorar ídolos”. A própria Bíblia tem uma passagem (EXODUS 20)  em que mostra uma preocupação com uso das imagens: “não farás para ti imagem esculpida de nada que se assemelhe ao que existe lá em cima, nos céus, ou embaixo na terra, ou nas águas que estão debaixo da terra”

Para os cristãos, o movimento iconoclasta era uma maneira de se diferenciarem dos pagãos, que adoravam imagens de diversos deuses. Mas mesmo os primeiros cristãos representavam sua fé por meio do desenho de um peixe. A proibição ao uso de imagens, portanto, sempre foi entendida com certa elasticidade. Ainda de acordo com a bíblia (EXODUS 20: 3-5):

“Exceto por um período tardio, percebemos que o mandamento nunca foi entendido como uma proibição absoluta e universal de qualquer tipo de imagem. Em todo o Antigo Testamento há exemplos de representações de seres vivos, de modo algum adorados, mas usados legalmente, até mesmo ordenados pela lei como ornamentos do tabernáculo e do templo”.

O que nunca impediu que a iconoclastia (ou sua negação) fosse motivo de discórdia. No século VIII, oficialmente, o ano de sua adoção pelo cristianismo, no Concílio de Hieria, ela já provocou ruptura entre a Igreja do Ocidente, atualmente, Católica, e a Igreja do Oriente, Ortodoxa, tema que só foi apaziguado pelo Segundo Concílio de Niceia, 33 anos depois.

ESTADO ISLÂMICO E AS IMAGENS

O grupo autodenominado Estado Islâmico em atividade na Síria e no Iraque, autor dos ataques em Paris, em novembro de 2015, de Bruxelas em março de 2016, que nasce de um desmembramento da Al-Qaeda traz uma série de contradições dignas de serem discutidas no campo da imagem. Os terroristas que declaradamente tem como inimigo mortal o ocidente ou qualquer coisa ocidentalizada — e a imagem e seu uso passou a ter um peso não somente religioso, mas de um comportamento ocidentalizado — e por isso toda vez que o grupo conquistava um território, ele  destruía os símbolos: monumentos, museus, bibliotecas, igrejas. Essa análise é feita, inclusive, no livro Contro la bellezza –la sfida per salvare i tesori dell’arte dalla furia dell’isis (em português: Contra a beleza – o desafio para salvar os tesouros artísticos da furia do ISIS) do autor italiano Viviano Domenici

No caso do Estado Islâmico, eles não são contra somente a existência de imagens religiosas, mas também contra o uso de qualquer tipo de imagem, pois para a organização, estas imagens remetem ao comportamento ocidentalizado.

 

vice_estadoislamico_iconoclastia
Crédito: Reprodução Youtube\ Canal Vice News

Em um trecho do documentário The Islamic State (2014) produzido pela Vice News, um patrulheiro do Estado Islâmico anda de carro pelas ruas de Raqqa enquanto conta ao repórter do canal que o dever dele é assegurar que os territórios sob poder do grupo estejam funcionando dentro das leis Sharia, isso inclui o comportamento das pessoas como orações, aparência em público, jejum e até crimes graves. Em um certo momento, eles passam por um comércio na rua, o patrulheiro chama o responsável e pede para que ele tire certa imagem dali, nas palavras dele:

“Minha tarefa é criar um califado. Para fazer isso, requer um profeta. Precisamos aprender uns com os outros o que funciona e o que não funciona. Só um momento por favor.  Com licença, que a paz esteja com você irmão, como você está? Não use estas imagens, queremos esta rua como uma muçulmana. Somos muçulmanos. Nós não queremos os infiéis. Opomo-nos aos infiéis. Se você colocar essa imagem, significa amar os incrédulos. Acredite em mim, você tem de tirar essa imagem, é a vontade de Deus”. (THE ISLAMIC STATE. Direção: Medyan Daireh. 42 min)

Men use sledgehammers on a toppled statue in a museum at a location said to be Mosul
Crédito: Reprodução. Integrantes do Estado Islâmico destroem estátuas dentro de museu em Mosul, no Iraque

Como o mundo ocidental recebe e consome as imagens e como o mundo oriental, principalmente, a população de orientação Islã, muda completamente, pois está muito enraizado na religião. O mundo ocidental tem uma relação de adoração com a imagem e isso se deve, em partes, ao fato de o cristianismo ser a religião dominante dele. E o cristianismo, desde o seu primórdio, expressa sua fé e devoção por meio de imagens e símbolos. Enquanto no Oriente, onde se encontra a maior parte da população muçulmana, a relação com a imagem é questionada quanto à sua relação com a fé e devoção.  Trata-se de uma divergência histórica no comportamento diante da imagem para estes dois mundos como reforça Flavio di Caroli, no livro “Contro La Belezza – La Sfida Per Salvare I Tesori Dell’arte Dalla Furia Dell’Isis” (2016), de Viviano Domenici:

“No ocidente, a imagem será sempre de espécie narrativa, desde Giotto ao Masaccio, ao Barroco. No oriente, os assim ditos ícones (guiados por severrisimas leis iconográficas quase imutadas com o tempo) será revelativa, no sentido que por trás da imagem, digamos de São Paulo, se pensará que temos que ver o verdadeiro São Paulo que senta no paraíso.”

Em junho de 2014, quando estabeleceu o chamado califado, a organização destruiu os santuários xiitas de Imam Yahya Ibn al-Qassem, Aoun al-Din e Nabi Danial, em Mossul. Um mês depois destruiu a mesquita do Profeta Jonas — construída no século VIII juntamente ao seu túmulo — e as mesquitas do Profeta Seth e do Profeta Jirjis também, em Mossul. Estimase que, apenas em Mossul, tenham sido destruídos pelo menos 30 santuários. Já em agosto de 2014, foi a vez da Grande Mesquita de Umayyad, do século XIII, em Aleppo, e entre agosto e setembro, o mosteiro de S. Elias em Mossul.

No final de outubro a Igreja Verde, símbolo de Tikrit, proveniente do século VII também não foi poupada. No mês de dezembro foi a vez do Museu de Mossul, onde também foram destruídas a igreja de Virgem Maria e a Biblioteca da Universidade de Mossul. Estas foram as destruições no ano de 2014, período em que o Estado Islâmico se estabeleceu em regiões da Síria e do Iraque. O ano de 2015 foi aberto com a destruição da cidade milenar de Nimrud e terminou com a destruição da Biblioteca Pública de Mossul, com cerca de 8 mil livros queimados — as destruições não pararam até o momento, embora o Estado Islâmico tenha perdido muitos territórios. O que chama a atenção é que o Estado Islâmico destruiu memórias, e estas, por sua vez, estão totalmente relacionada às imagens.

O passado deixou de ser desconhecido e se tornou acessível e melhor compreendido pela população por meio de museus e memoriais urbanos — e o primeiro passo para dizimar um povo é apagar sua memória e sua cultura é justamente a destruição desses elementos. Nos lembra Andrey Tarkovski (1932 – 1986) em Esculpir o Tempo, que a falta de memória pode “tornar o homem prisioneiro de uma existência ilusória; ao ficar à margem do tempo, ele é incapaz de compreender os elos que o ligam ao mundo exterior – em outras palavras, vê-se condenado à loucura”. Tarkovski se refere à memória individual, mas estes efeitos podem ser aplicados a todo um povo que teve a memória de sua nação destruída.

Este artigo faz parte da dissertação de mestrado, Revista Dabiq: Uma análise do uso da imagem pelo Estado Islâmico, da Faculdade Cásper Líbero – defendida no dia 12 de dezembro de 2017, de autoria de Letícia Quatel sob orientação da profa. Dra. Simonetta Persichetti.

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