Este artigo não tem como objetivo dar uma fórmula precisa sobre publicar ou não fotografias chocantes. Ele apresenta a visão de alguns dos principais pensadores da imagem como Susie Linfield, Susan Sontag e Roland Barthes sobre o tema passando também pela psicologia social com o psicólogo italiano, Giuseppe Mininni.

A violência está presente de forma contundente na mídia, o jargão jornalístico “se sangrar vira manchete”, traduzido da frase “if it bleeds, it leads” mostra que a relação dos meios de comunicação é estrita com este tipo de conteúdo. A prática de optar pelo relato do extraordinário e da aberração — elementos presentes em histórias de violência, compõe a estrutura, segundo Roland Barthes (1971), do fait-diver, segundo o pensador francês  no livro Mitologias, trata-se um recurso que ainda se aproxima da narrativa das novelas, ou seja, o relato noticioso se aproxima do relato ficcional não somente pela sua estrutura narrativa, mas também pelo assunto que está sendo tratado. Isto tudo porque este tipo de conteúdo tem a capacidade de desencadear uma sensação e esta sensação, por sua vez, é capaz de prender um ouvinte, um telespectador, ou um espectador.

Originalmente, a “sensação significou nada mais do que percepção. Nos dias atuais, entende-se principalmente como sensação aquilo que, magneticamente, atrai a percepção: o espetacular, o chamativo”, segundo o filósofo alemão Christoph Turcke no livro Sociedade Excitada- Filosofia da Sensação.

E é exatamente neste modelo de negócio para o qual muitos meios de comunicação miram – a audiência. Mas se por um lado, essa discussão sobre o conteúdo violento na mídia existe, em parte, por girar em torno do lucro, por outro, a discussão também se faz necessária pelos seus reflexos em quem recebe este tipo de conteúdo,

No caso das imagens e das fotografias que explicitam a violência, também existe uma discussão — por que mostrar ou não mostrar a imagem “que sangra” ? O tema que inaugurou a foto-choque é a guerra. As fotografias de conflito, por um lado, podiam carregar a função de mostrar o estrago da guerra e desta forma, como acreditava a escritora Virginia Woolf  (1882 – 1441), citada no livro Diante da Dor dos Outros de Susan Sontag, “que o impacto de imagens como aquelas deveria necessariamente unir pessoas de boa vontade”. Para Woolf, não sofrer com essas imagens era a reação de um monstro real. Mas será que essas imagens, como acreditou Woolf, são capazes de unir pessoas contra as atrocidades da guerra ou contra qualquer fenômeno violento? Para Barthes a resposta é não. Ele defendia que a fotografia que carrega um conteúdo violento tira qualquer chance de reflexão, pois nas palavras dele mesmo ‘perante elas (as fotos-choque) ficamos despossuídos da nossa capacidade de julgamento: alguém tremeu por nós, refletiu por nós, julgou por nós; o fotógrafo não nos deixou nada – a não ser um simples direito de uma aprovação intelectual: só estamos ligados a essas imagens por um interesse técnico.”

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Foto vencedora do World Press Photo 2018 tirada pelo fotógrafo venezuelano Ronaldo Schemidt em 2017 durante os protestos contra o Maduro

Outra dúvida, não menos importante, que pondera a discussão sobre a divulgação dessas imagens, ainda que a intenção seja despertar o espectador para lutar contra atrocidades do mundo, seriam as reações negativas que poderiam causar. Será que uma imagem violenta não pode causar uma resposta de violência também?Para Susan Sontag a foto de uma atrocidade pode causar reações opostas. “Um apelo em favor da paz. Um clamor de vingança. Ou apenas a atordoada consciência, continuamente reabastecida por informações fotográficas, de que coisas terríveis acontecem.”

Outra questão que rodeia a imagem-choque é quem a está recebendo Virgina Woolf acreditava que era uma maneira de aproximar as pessoas socialmente privilegiadas de uma realidade que, talvez, elas preferissem ignorar – e independentemente de reflexões e reações que possam causar – essas fotografias pelo menos cumpririam o papel de mostrar que algo muito errado está acontecendo no mundo, como concordou Susie Linfield, em The Cruel Radiance – Photography and Political Violence ao dizer que: “Hoje é, simplesmente, impossível dizer, ‘eu não sabia’: fotografias nos tiraram o álibi da ignorância. Nós conhecemos o sofrimento de várias partes do mundo, de modo que nossos antepassados nunca conseguiram, e as imagens que vemos – em alguns lugares, sob algumas condições – demandam não só nosso interesse, mas uma resposta.”

Outra questão que cerca a discussão sobre a divulgar ou não a “foto-choque” é o uso da mesma como um documento para atestar vitória. Algo para o qual Susan Sontag chamou a atenção ao resgatar uma situação com a Guerra dos Bôeres (1899-1902) em que os Bôeres após sua vitório em Spion Kop, em janeiro de 1900 colocaram em circulação uma foto horripilantes de soldados britânicos mortos em uma trincheira. “Afinal, exibir os mortos é o que fazem os inimigos”.

Susie Linfield, por outro lado, não enxerga com nenhum otimismo a divulgação dessas fotografias. Embora a autora reconheça que se trata de um recurso que possibilite o mundo de conhecer a crueldade humana e a “dor do outro”, ela não acredita em nenhuma transformação positiva provocada por estas imagens: “Não que a fotografia detenha as atrocidades, muito menos as previna: nossa inocência nessa área acabou faz tempo. A crença no poder da salvação da exposição pela exposição não pode mais ser sustentada”.

Imagens violentas para a  psicologia social

Do ponto de vista da psicologia social – ciência que estuda o comportamento – as questões que envolvem a divulgação de cenas violentas não são bem vistas. Não é uma regra que a divulgação destas imagens desencadeará uma conduta violenta em quem a está recebendo, mas um experimento relatado no livro Psicologia Cultural da Mídia  do psicólogo italiano Giuseppe Mininni, mostra que o efeito da exposição de um conteúdo violento gera respostas também violentas na maior parte dos envolvidos no teste:

Em um famoso experimento realizado pela equipe de Albert Bandura (1963), crianças assistem a cenas de violência realizadas ao vivo ou representadas em um programa de TV. Logo após lhes é permitido entrar na sala de brinquedos, dentro da qual um determinado número de crianças manifesta condutas agressivas para com uma boneca inflável. O objetivo de Bandura é mostrar que as pessoas aprendem não apenas por experiências diretas, mas também por meio da observação de modelos. Para aprender os modos de expressar agressividade, não é necessário que tenhamos sofrido na pele, mas é suficiente tê-la visto sendo exercida por outros em outros.

Outro ponto que envolve o comportamento diante da recepção de um conteúdo violento é a transferência de excitação que este tipo de conteúdo causa.  Segundo Giuseppe Mininni, “[…]assistir a cenas violentas implica um estado de excitação fisiológica (arousal) que pode transbordar para outras situações da vida real. Se, depois de ter assimilado conteúdos midiáticos violentos, as pessoas se deparam com situações que provocam emoções (conflitos de decisão entre marido e mulher, briga entre irmãos etc), tendem a transferir para o novo contexto de interação o estado de excitação anterior, talvez nelas desencadeado sem que percebessem, razão pela qual reagem de maneira mais agressiva do que normalmente fariam. ”

Em suma, o conteúdo violento, independentemente, por qual linguagem midiática seja exposto, causa uma sensação e pode atrair o espectador na maioria das vezes, mas está longe de causar uma reflexão que faça um convite para combater as atrocidades e a crueldade do mundo. A divulgação de cenas violentas parece pegar dois caminhos e nenhum deles é positivo — um seria o esvaziamento desta reflexão e desta mobilização, outro, uma resposta também violenta dentro de um ciclo vicioso.

 

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